terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Reflexão Diária- Quarta Feira, 26 de Dezembro





Evangelho segundo S. Mateus
10,17-22.


Tende cuidado com os homens: hão-de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas suas sinagogas;
sereis levados perante governadores e reis, por minha causa, para dar testemunho diante deles e dos pagãos.
Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis nem como haveis de falar nem com o que haveis de dizer; nessa altura, vos será inspirado o que tiverdes de dizer.
Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós.
O irmão entregará o seu irmão à morte, e o pai, o seu filho; os filhos hão-de erguer se contra os pais e hão-de causar-lhes a morte.
E vós sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.


Comentário ao Evangelho do dia feito por : São Cesário de Arles
Santo Estêvão, o primeiro a seguir os passos de Cristo


Santo Estêvão, o primeiro a seguir os passos de Cristo


«Cristo padeceu por nós, deixando-vos um exemplo para seguirdes os seus passos» (1 Pe 2, 21). Qual o exemplo do Senhor que devemos seguir? O de ressuscitar os mortos? O de caminhar sobre as águas? Não, não serão esses, mas o de sermos mansos e humildes de coração (Mt 11,29) e de amarmos tanto os amigos como os nossos inimigos (Mt 5,44).
«A fim de seguirdes os seus passos», escreve São Pedro. Disse-o também o beato João evangelista: «Quem diz que permanece em Cristo deve caminhar como Ele caminhou» (1 Jo 2,6). Como caminhou Cristo? Rezou na cruz pelos seus inimigos, dizendo: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Eles perderam de facto o juízo e foram possuídos por um espírito maligno, e enquanto nos perseguem sofrem perseguição bem maior do diabo. Por isso muito devemos rezar, sobretudo pela sua libertação, não pela sua condenação.
Foi o que fez o beato Estêvão, ele que foi o primeiro a seguir, em toda a glória, os passos de Cristo. Porque, enquanto o apedrejavam em saraivada, por si próprio gritou de pé; mas ao pedir pelos seus inimigos pôs-se de joelhos, gritando com todas as suas forças: «Senhor Jesus Cristo, não lhes atribuas este pecado» (Act 7,60). Portanto, se pensamos que não podemos imitar a nosso Senhor, ao menos imitemos aquele que era seu servo como nós.

Quarta-feira, dia 26 de Dezembro de 2007-SANTO DO DIA

SANTO ESTEVÃO, DIÁCONO, PRIMEIRO MÁRTIR, SÉC. I


Depois do Pentecostes, os apóstolos dirigiam o anúncio da mensagem cristã aos mais próximos, aos hebreus, aguçando o conflito apenas acalmado da parte das autoridades religiosas do judaísmo. Como Cristo, os apóstolos conheceram logo as humilhações dos flagelos e da prisão, mas apenas libertados das correntes retomam a pregação do Evangelho. A primeira comunidade cristã, para viver integralmente o preceito da caridade fraterna, colocou tudo em comum, repartindo diariamente o que era suficiente para o seu sustento. Com o crescimento da comunidade, os apóstolos confiaram o serviço da assistência diária a sete ministros da caridade, chamados diáconos.
Entre eles sobressaía o jovem Estêvão, que além de exercer as funções de administrador dos bens comuns, não renunciava ao anúncio da Boa Nova, e o fez com tanto sucesso que os judeus “apareceram de surpresa, agarraram estêvão e levaram-no ao tribunal. Apresentaram falsas testemunhas, que declararam: "Este homem não faz outra coisa senão falar contra o nosso santo templo e contra a Lei de Moisés. Nós até o ouvimos afirmar que esse Jesus de Nazaré vai destruir o templo e mudar as tradições que Moisés nos deixou."
Estêvão, como se lê nos Actos dos Apóstolos, cheio de graça e de força, como pretexto de sua autodefesa, aproveitou para iluminar as mentes de seus adversários. Primeiro, resumiu a história hebraica de Abraão até Salomão, em seguida afirmou não ter falado contra Deus, nem contra Moisés, nem contra a Lei, nem fora do Templo. Demonstrou, de facto, que Deus se revelava também fora do Templo e se propunha a revelar a doutrina universal de Jesus como última manifestação de Deus, mas os seus adversários não o deixaram prosseguir no discurso, "taparam os ouvidos e atiraram-se todos contra ele, em altos gritos. Expulsaram-no da cidade e apedrejaram-no."
Dobrando os joelhos debaixo de uma tremenda chuva de pedra, o primeiro mártir cristão repetiu as mesmas palavras de perdão pronunciadas por Cristo sobre a Cruz: "Senhor, não os condenes por causa deste pecado." Em 415 a descoberta das suas relíquias suscitou grande emoção na cristandade. A festa do primeiro mártir foi sempre celebrada imediatamente após a festividade do Natal.




Mensagem de Natal de Bento XVI
25 de dezembro de 2007



CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 25 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a mensagem de Natal que Bento XVI proclamou ao meio-dia de hoje, do balcão principal da Basílica de São Pedro, no Vaticano, diante de dezenas de milhares de peregrinos.

***

«Santo é o dia que nos trouxe a luz.

Vinde e adorai o Senhor!

Hoje uma grande luz desceu sobre a Terra!»

(Missa do dia de Natal, Aclamação ao Evangelho)

Caros Irmãos e Irmãs! «Santo é o dia que nos trouxe a luz». Um dia de grande esperança: nasceu hoje o Salvador da humanidade! O nascimento de uma criança traz normalmente uma luz de esperança para os que ansiosamente a esperam. Quando Jesus nasceu na gruta de Belém, «uma grande luz» apareceu sobre a terra; uma grande esperança entrou no coração dos que O esperavam: «lux magna», canta a liturgia deste dia de Natal. Não foi certamente «grande» como o mundo pensa, pois os primeiros a vê-la foram só Maria, José e alguns pastores, depois os Magos, o velho Simeão, a profetiza Ana: os que Deus tinha escolhido. No entanto, na humildade e no silêncio daquela noite santa, acendeu-se para cada homem uma luz esplêndida e inextinguível; chegou ao mundo a grande esperança portadora de felicidade: «O Verbo fez-Se carne e [...] nós vimos a sua glória» (Jo 1,14).

«Deus é luz - afirma S. João - e n’Ele não há trevas» (1 Jo 1,5). No Livro do Gênesis, lemos que, quando teve início o universo, «a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo». «Deus disse: "Faça-se a luz!". E a luz foi feita» (Gn 1,2-3). A Palavra criadora de Deus é Luz, fonte da vida. Tudo foi feito por meio do Logos e sem Ele nada foi feito de tudo quanto existe (cf. Jo 1,3). Eis porque todas as criaturas no fundo são boas, e trazem em si o vestígio de Deus, uma centelha da sua luz. Porém, quando Jesus nasceu da Virgem Maria, a mesma Luz veio ao mundo: "Deus de Deus, Luz da Luz", professamos no Credo. Em Jesus, Deus assumiu o que não era permanecendo aquilo que era: «a omnipotência entrou num corpo infantil e não se privou do governo do universo» (cf. S. Agostinho, Serm. 184, 1 sobre o Natal). Fez-Se homem Aquele que é o criador do homem para trazer paz ao mundo. Por isso, na noite de Natal, cantam os exércitos do Anjos: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do Seu agrado» (Lc 2,14).

«Hoje uma grande luz desceu sobre a Terra». A Luz de Cristo é portadora de paz. Na Missa da Meia Noite a liturgia eucarística iniciou precisamente com este canto: «Hoje desceu do Céu sobre nós a verdadeira paz» (Antífona de Entrada). Mais ainda, só a «grande» luz vinda de Cristo pode dar aos homens a «verdadeira» paz: eis porque cada geração é chamada a acolhê-la, a acolher a Deus que em Belém Se fez um de nós.

Isto é o Natal! Acontecimento histórico e mistério de amor que, há mais de dois mil anos, interpela os homens e as mulheres de cada época e lugar. É o dia santo em que brilha a «grande luz» de Cristo portadora de paz! Certamente, para reconhecê-la, para acolhê-la, é preciso fé, é preciso humildade. A humildade de Maria, que acreditou na palavra do Senhor e foi a primeira que, inclinada sobre a manjedoura, adorou o Fruto do seu ventre; a humildade de José, homem justo, que teve a coragem da fé e preferiu obedecer a Deus mais que preservar a própria reputação; a humildade dos pastores, dos pobres e anónimos pastores, que acolheram o anúncio do mensageiro celeste e à pressa foram à gruta onde encontraram o Menino recém-nascido e, cheios de maravilha, O adoraram louvando a Deus (cf. Lc 2,15-20). Os pequenos, os pobres em espírito: eis os protagonistas do Natal, ontem como hoje; os protagonistas de sempre da história de Deus, os construtores incansáveis do seu Reino de justiça, de amor e de paz.

No silêncio da noite de Belém, Jesus nasceu e foi acolhido por mãos carinhosas. E agora, neste nosso Natal em que continua a ressoar o feliz anúncio do seu nascimento redentor, quem está preparado para Lhe abrir a porta do coração? Homens e mulheres deste nosso tempo, Cristo vem trazer a luz também a nós, vem dar-nos a paz também a nós! Mas quem vigia, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração desperto e em oração? Quem espera a aurora do novo dia, mantendo acesa a chamazinha da fé? Quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se envolver pelo fascínio do seu amor? Sim! É para todos a sua mensagem de paz; é a todos que vem oferecer-Se a Si próprio como esperança certa de salvação.

A luz de Cristo, que vem iluminar cada ser humano, possa finalmente brilhar, e sirva de consolação especialmente para os que vivem nas trevas da miséria, da injustiça, da guerra; para os que ainda se vêem negada à legítima aspiração a uma mais garantida sustentação, à saúde, à instrução, a uma ocupação estável, a uma maior participação nas responsabilidades civis e políticas, livres de qualquer opressão e ao abrigo de condições que ofendem a dignidade humana. Vítimas de conflitos armados sangrentos, do terrorismo e de violências de todo tipo, que acarretam incríveis sofrimentos a inúmeras populações, são de modo particular as faixas mais vulneráveis, as crianças, as mulheres, os anciãos. Enquanto que as tensões étnicas, religiosas e políticas, a instabilidade, a rivalidade, as contraposições, as injustiças e as discriminações, que dilaceram o tecido interno de muitos Países, exacerbam as relações internacionais. E no mundo cresce sempre mais o número dos imigrantes, dos refugiados, dos desamparados, devido também às freqüentes calamidades naturais, causadas não raro pelos preocupantes desastres ambientais.

Neste dia de paz, o pensamento se dirige sobretudo ali onde ressoa o fragor das armas: às martirizadas terras do Darfur, da Somália e do norte da República do Congo, às fronteiras da Eritreia e da Etiópia, a todo o Oriente Médio, nomeadamente ao Iraque, ao Líbano e à Terra Santa, ao Afeganistão, ao Paquistão e ao Sri Lanka, à região dos Bálcãs, e às outras muitas regiões em crise, infelizmente muitas vezes esquecidas. O Menino Jesus traga alivio a quem passa pela provação e infunda aos responsáveis de governo a sabedoria e a coragem de procurar e encontrar soluções humanas, justas e duradouras. À sede de sentido e de valor que hoje o mundo experimenta; à procura de bem-estar e de paz que caracteriza a vida de toda a humanidade; às expectativas dos pobres, Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, responde com o seu Natal. Não temam os indivíduos e as nações reconhecê-Lo e acolhê-Lo: com Ele, «uma esplêndida luz» ilumina o horizonte da humanidade; com Ele, abre-se «um dia santo» que não conhece ocaso. Este Natal seja verdadeiramente para todos um dia de alegria, de esperança e de paz!

«Vinde e adorai o Senhor!». Com Maria, José e os pastores, com os Magos e a multidão inumerável de humildes adoradores do Menino recém-nascido que, ao longo dos séculos, acolheram o mistério do Natal, também nós, irmãos e irmãs de cada continente, deixemos que a luz deste dia se propague em o todo lugar; entre nos nossos corações, ilumine e aqueça as nossas casas, traga serenidade e esperança às nossas cidades, dê paz ao mundo. Estes são os meus votos para vós que me escutais. Votos que se fazem prece humilde e confiante ao Menino Jesus, a fim de que a sua luz dissipe todas as trevas da vossa vida e vos encha do amor e da paz. O Senhor, que fez resplandecer em Cristo a sua face misericordiosa, vos sacie da sua felicidade e vos torne mensageiros da sua bondade. Feliz Natal!

[Tradução do original em italiano distribuída pela Santa Sé: O Papa saudou os peregrinos em língua portuguesa:]

Feliz Natal para todos, e que a Luz de Cristo Salvador ilumine os vossos corações de paz e de esperança!

Homilia de Bento XVI na missa de Natal

***


Amados irmãos e irmãs,

«Chegou o dia de Maria dar à luz, e teve o seu filho primogénito. Envolveu-O em panos e recostou-O numa manjedoura, por não terem lugar na hospedaria» (cf. Lc 2, 6-7). Estas frases não cessam de tocar os nossos corações. Chegou o momento que o Anjo tinha preanunciado em Nazaré: «Hás-de dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo» (cf. Lc 1, 31-32). Chegou o momento que Israel aguardava há muitos séculos, durante tantas horas sombrias – o momento de algum modo esperado por toda a humanidade, ainda que sob figuras confusas: que Deus viesse cuidar de nós, que saísse do seu esconderijo, que o mundo fosse salvo e tudo se renovasse. Podemos imaginar com quanto cuidado interior, com quanto amor Se preparou Maria para aquela hora. A breve anotação «envolveu-O em panos» deixa-nos intuir algo da santa alegria e do zelo silencioso de tal preparação. Estavam prontos os panos, para que o Menino pudesse ser bem acolhido. Na hospedaria, porém, não havia lugar. De algum modo a humanidade espera Deus, a sua proximidade. Mas quando chega o momento, não tem lugar para Ele. Está tão ocupada consigo mesma, sente necessidade tão imperiosa de todo o espaço e de todo o tempo para as próprias coisas, que não resta nada para o outro: para o próximo, para o pobre, para Deus. E quanto mais ricos se tornam os homens, tanto mais preenchem tudo de si mesmos. Tanto menos pode entrar o outro.

João, no seu Evangelho, fixando-se no essencial, aprofundou a breve notícia de São Lucas sobre a situação de Belém: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (1, 11). Isto aplica-se antes de mais a Belém: o Filho de David vem à sua cidade, mas tem de nascer num curral, porque, na hospedaria, não há lugar para Ele. Aplica-se depois a Israel: o enviado chega junto dos Seus, mas não O querem. Na realidade aplica-se à humanidade inteira: Aquele por Quem o mundo foi feito, o Verbo criador primordial entra no mundo, mas não é ouvido, não é acolhido.

Em última análise, estas palavras aplicam-se a nós, a cada individuo e à sociedade no seu todo. Temos nós tempo para o próximo que necessita da nossa, da minha palavra, do meu afecto? Para o doente que precisa de ajuda? Para o prófugo ou o refugiado que procura asilo? Temos nós tempo e espaço para Deus? Pode Ele entrar na nossa vida? Encontra um espaço em nós, ou temos todos os espaços do nosso pensamento, da nossa acção, da nossa vida ocupados para nós mesmos?

Graças a Deus, a notícia negativa não é a única, nem a última que encontramos no Evangelho. Tal como encontramos em Lucas o amor de Maria, a mãe, e a fidelidade de São José, a vigilância dos pastores e a sua grande alegria, tal como encontramos em Mateus a visita dos doutos Magos, vindos de longe, assim também João nos diz: «Mas, a quantos O receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Existem aqueles que O acolhem e deste modo, a começar do curral, do exterior, cresce silenciosamente a nova casa, a nova cidade, o novo mundo. A mensagem de Natal leva-nos a reconhecer a escuridão dum mundo fechado, e deste modo clarifica sem dúvida uma realidade que vemos diariamente. Mas isto diz-nos também que Deus não Se deixa fechar fora. Ele encontra um espaço, entrando nem que seja para o curral; existem homens que vêem a sua luz e a transmitem. Através da palavra do Evangelho, o Anjo fala-nos também a nós, e, na liturgia sagrada, a luz do Redentor entra na nossa vida. Quer sejamos pastores quer sejamos sábios, a luz e a sua mensagem convida-nos para nos pormos a caminho, sairmos da mesquinhez dos nossos desejos e interesses a fim de irmos ao encontro do Senhor e adorá-Lo. Adoramo-Lo abrindo o mundo à verdade, ao bem, a Cristo, ao serviço de quantos vivem marginalizados e nos quais Ele nos espera.

Nalgumas representações natalícias da Baixa Idade Média e princípios da Idade Moderna, o curral aparece como um palácio arruinado. Ainda se pode reconhecer a grandeza de outrora, mas agora foi à ruína, as paredes caíram: tornou-se, isso mesmo, um curral. Embora não tendo qualquer base histórica, esta interpretação, no seu aspecto metafórico, exprime contudo algo da verdade que se encerra no mistério do Natal. O trono de David, para o qual estava prometida uma duração eterna, encontra-se vazio. Outros dominam sobre a Terra Santa. José, o descendente de David, é um simples artesão; na realidade, o palácio tornou-se uma cabana. O próprio David começara por ser pastor. Quando Samuel o procurou para a unção, parecia impossível e absurdo que semelhante jovem-pastor pudesse tornar-se o portador da promessa de Israel. No curral de Belém, lá precisamente onde se verificara o ponto de partida, recomeça a realeza davídica de maneira nova: naquele Menino envolvido em panos e recostado numa manjedoura. O novo trono, donde este David atrairá a Si o mundo, é a Cruz. O novo trono – a Cruz – é o termo correlativo ao novo início no curral. Mas é assim mesmo que se constrói o verdadeiro palácio davídico, a verdadeira realeza. Este novo palácio é muito diverso do modo como os homens imaginam um palácio e o poder real: é a comunidade daqueles que se deixam atrair pelo amor de Cristo e, com Ele, se tornam um só corpo, uma humanidade nova. O poder que provém da Cruz, o poder da bondade que se dá: tal é a verdadeira realeza. O curral torna-se palácio: é precisamente a partir deste início que Jesus edifica a grande comunidade nova, cuja palavra-chave os Anjos cantam na hora do seu nascimento: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama», ou seja, homens que depõem a sua vontade na d’Ele, tornando-se assim homens de Deus, homens novos, mundo novo.

Gregório de Nissa, nas suas homilias natalícias, desenvolveu a mesma ideia a partir da mensagem de Natal do Evangelho de João: «Levantou a sua tenda no meio de nós» (Jo 1, 14). Gregório aplica esta imagem da tenda ao nosso corpo, que ficou como tenda consumida e frágil; exposto por todo o lado à dor e ao sofrimento. E aplica-a ao universo inteiro lacerado e desfigurado pelo pecado. E que diria ele, se tivesse visto as condições em que hoje se encontra a terra por causa do abuso das energias e da sua exploração egoísta e sem respeito algum? Uma vez, de maneira quase profética, Anselmo de Cantuária descreveu antecipadamente aquilo que vemos hoje num mundo inquinado e ameaçado no seu futuro: «Tudo estava como que morto, tinha perdido a dignidade para que tinha sido feito, ou seja, para servir aqueles que louvam a Deus. Os elementos do mundo estavam oprimidos, tinham perdido o seu esplendor por causa do abuso de quantos os tornavam servos dos seus ídolos, para o quais não tinham sido criados» (PL 158, 955s). Assim, retomando a perspectiva de Gregório, o curral na mensagem de Natal representa a terra maltratada. Cristo não reconstrói um palácio qualquer. Veio para restituir à criação, ao universo a sua beleza e dignidade: é isto que tem início no Natal e faz rejubilar os Anjos. A terra é posta de novo em ordem pelo facto de ser aberta a Deus, de obter novamente a sua verdadeira luz, e, na sintonia entre querer humano e querer divino, na unificação das alturas com a realidade cá de baixo, recupera a sua beleza, a sua dignidade. Deste modo, o Natal é uma festa da criação reconstruída. É a partir deste contexto que os Padres interpretam o canto dos Anjos na Noite santa: é a expressão da alegria pelo facto de as alturas e a realidade cá de baixo, céu e terra se encontrarem novamente unidos; de o homem estar de novo unido a Deus. Segundo os Padres, faz parte do canto natalício dos Anjos que, agora, Anjos e homens possam cantar juntos e que, deste modo, a beleza do universo se exprima na beleza do canto de louvor. O canto litúrgico – sempre segundo os Padres – possui uma dignidade própria particular pelo facto de ser um cantar juntamente com os coros celestes. É o encontro com Jesus Cristo que nos torna capazes de ouvir o canto dos Anjos, criando assim a verdadeira música que decai quando perdemos este "cantar-com" e "ouvir-com".

No curral de Belém, tocam-se céu e terra. O céu veio à terra. Por isso, de lá emana uma luz para todos os tempos; por isso lá se acende a alegria; por isso lá nasce o canto. Quero, no termo da nossa meditação natalícia, citar uma singular afirmação de Santo Agostinho. Ao interpretar a invocação da Oração do Senhor «Pai Nosso que estais nos céus», ele interroga-se: O que é isto, o céu? E onde é o céu? Segue-se uma resposta surpreendente: «…que estais nos céus – isto significa: nos santos e nos justos. Temos, é verdade, os céus, os corpos mais elevados do universo, mas sempre corpos são, os quais não podem estar senão num lugar. Na realidade, se se acreditasse que o lugar de Deus seria nos céus enquanto as partes mais altas do mundo, então as aves seriam mais felizardas do que nós, porque viveriam mais perto de Deus. Ora não está escrito: "O Senhor está perto de quantos habitam nas alturas ou nas montanhas", mas sim "O Senhor está perto dos contritos de coração" (Sal 34/33, 19), expressão esta que se refere à humildade. Do mesmo modo que o pecador é chamado "terra", por contraposição também o justo pode ser chamado "céu"» (Serm. in monte II 5, 17). O céu não pertence à geografia do espaço, mas à geografia do coração. E o coração de Deus, na Noite santa, inclinou-Se até ao curral: a humildade de Deus é o céu. E se formos ao encontro desta humildade, então tocamos o céu. Então a própria terra se torna nova. Com a humildade dos pastores, ponhamo-nos a caminho, nesta Noite santa, até junto do Menino no curral! Toquemos a humildade de Deus, o coração de Deus! Então a sua alegria tocar-nos-á a nós e tornará mais luminoso o mundo. Amen.

[Tradução do original em italiano distribuída pela Santa Sé

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Terça-feira, dia 25 de Dezembro de 2007

HOJE A IGREJA CELEBRA: NATAL DO SENHOR


Evangelho segundo S. João 1,1-18.


No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus.
No princípio Ele estava em Deus.
Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência.
Nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens.
A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.
Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele.
Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.
Ele estava no mundo e por Ele o mundo veio à existência, mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram de laços de sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus.
E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.
João deu testemunho dele ao clamar: «Este era aquele de quem eu disse: 'O que vem depois de mim passou-me à frente, porque existia antes de mim.'»
Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graças sobre graças.
É que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo.
A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.



1º Sermão para a Natividade

Beato Guerric d’Igny (c.1080-1157), abade cisterciense

«Eis o sinal que vos é dado: um recém-nascido […] deitado numa manjedoura (Lc 2,12)»


«Um menino nasceu para nós» (Is 9,5). E o Deus de majestade, aniquilando-se a si próprio (Fl 2,7) tornou-se semelhante ao corpo terrestre dos mortais, nele se assumindo na frágil e tenra idade das crianças […]. Ó santa e doce infância, que restitui ao homem a verdadeira inocência! Por ti todos os homens podem voltar a uma beata infância (Mt 18,3) e ser conformes ao Menino Deus, não pela pequenez dos membros, mas pela humildade do coração e doçura dos hábitos […].

Que te sirva de exemplo: Deus, sendo o maior, quis tornar-se no mais humilde e mais pequeno de todos. Para Ele era ainda bem pouco ficar abaixo dos anjos, ao tomar a condição da natureza mortal; teve pois de fazer-se mais pequeno que os homens, assumindo a idade e a fragilidade de uma criança. Que o homem pio e humilde a isto preste atenção, e em tal encontre motivo de felicidade. Que o homem ímpio e orgulhoso a isto preste atenção, e com tal se espante. Vejam o Deus infinito feito menino, um pequenino que devemos adorar […].

Nesta primeira manifestação aos mortais, Deus prefere mostrar-se com os traços de uma pequena criança, suscitando, nessa aparência, mais amor que temor. E, como vem para salvar e não para julgar, ele demonstra assim o que o amor poderá suscitar, remetendo para depois o que poderá inspirar o temor. Aproximemo-nos portanto com toda a confiança do trono da sua graça (He 4,16), nós que trememos só de pensar nesse trono de glória. Nada de terrível nem de severo há aqui a temer. Pelo contrário, tudo é bondade e doçura, que nos inspiram confiança. Não há, em verdade, coisa mais fácil de pacificar que o coração desta criança; Ele precede-te nas oferendas de paz e de satisfação e é o primeiro a enviar-te mensageiros de paz para te encorajar à reconciliação, a ti, que és culpado. Basta-te querer, e querer com verdade e de forma perfeita. Ele dar-te-á não apenas o perdão, mas cumular-te-á de graça. Mais ainda: certo de não ser ganho pequeno ter encontrado a ovelha perdida, celebrará uma festa com os seus anjos (Lc 15,7).


Sugestões para a homilia

Natal, um grande dom

Sem «salvadores» não há Salvador


Natal, um grande dom

Natal é uma palavra que se está a tornar ambígua. Nem todos a entendemos da mesma maneira. E, cada ano que passa, pode ficar mais confusa pela publicidade, pelos interesses comerciais e pela indiferença religiosa. Por isso, os cristãos temos que definir e valorizar o sentido desta festa.

O Natal tem de ser para os cristãos um grande dom. Celebramos a entrega de Deus, entrega que é total e para sempre. Oferece-Se a Si mesmo por meio de Jesus. «Porque Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único» (Jo 3, 16).

Jesus é uma dádiva de primeiríssima qualidade, a pessoa ideal por meio da qual Deus nos salva desde dentro da própria história. É a referência que nos deu para contrastar com o que somos e fazemos. Jesus é o homem novo, Aquele que passou toda a sua vida a fazer o bem.

Por isso, o Natal cristão faz-nos recordar e actualizar um pormenor importante: Deus quer estar connosco terra a terra, como companheiro de rua e de caminhos. Ele já veio e deixou a história fecundada com a sua semente. Já ninguém poderá apagar a sua presença. Já ninguém poderá eliminar o seu Evangelho. A vinda de Deus ao mundo como Redentor é o acontecimento de maior impacto que a história já alguma vez registou.

Sem «salvadores» não há Salvador

No fundo, toda a criatura humana precisa de encontrar-se com Ele.

O Natal é abrir o nosso coração, a fim de que a Palavra de Deus faça a sua morada no interior de cada um de nós, na nossa casa, no meio dos nossos vizinhos, no meio da nossa terra... É criar condições para acolher mais e melhor a presença de Deus e do seu Evangelho. Deus chega à nossa porta e toca a campainha.

Quer visitar-nos em pessoa. Mas Jesus não pode ser Salvador de nada nem de ninguém, se colocarmos o nosso interesse e a nossa confiança noutros «salvadores», como o dinheiro, o prazer, o prestígio...

O Natal cristão só se explica por amor: um amor extraordinário, indizível, sem limites, quase louco... Deus entrega-nos a sua divindade e recebe a nossa humanidade para Se colocar ao nosso serviço. Que maravilhosa iniciativa!

A nossa resposta, no entanto, deixou muito a desejar. Muitas vezes fomos renitentes à salvação. Não permitimos que Deus entrasse até ao mais íntimo recanto das nossas vidas. Por isso, foi custoso para Jesus desde o início. Fecharam-se-Lhe todas as portas. Teve que nascer fora da povoação, no meio de animais. Veio com toda a sua boa vontade, cheio de verdade, de vida, de luz, de solidariedade..., mas não foi recebido por muita gente: «A Palavra era a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a receberam... Veio para o que era seu, e os seus não O acolheram» (Jo 1, 4-5).

Também hoje nos custa aceitar e acolher Jesus. Julgamo-nos cristãos, mas não pomos a vida ao serviço do Reino de Deus, como Ele fez. Mesmo assim, o Natal é provocação e convicção de que aquilo que Deus fez por meio de Jesus também nós o podemos continuar a fazer.

Com o Natal de Jesus, o céu uniu-se à terra, diz cardealDom Odilo Scherer expressa seu feliz Natal aos fiéis


Por Alexandre Ribeiro

SÃO PAULO, domingo, 23 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- O arcebispo de São Paulo escreveu uma mensagem natalícia aos fiéis de sua arquidiocese em que afirma que, «com o Natal de Jesus, o céu uniu-se à terra».

Segundo Dom Odilo Pedro Scherer, «a fé cristã nos revela que o nascimento de Jesus foi o maior acontecimento da história: o próprio Filho do eterno Deus quis vir ao mundo, assumindo a natureza e a forma humanas, nascendo criança pequenina».

De acordo com o arcebispo, nesse evento, «o inaudito aconteceu, o incrível tornou-se verdadeiro, aquilo que seria impossível ao homem tornou-se realidade por pura condescendência de Deus para com a humanidade».

«O Eterno quis entrar no tempo, o Criador tornou-se criatura, o infinito quis ser contido nos limites deste mundo, o divino, no humano. Deus tornou- e próximo do homem, de cada ser humano, solidário com ele, seu companheiro e amigo no caminho, todos os dias.»

«O Altíssimo Deus – prossegue o cardeal Sherer –, que já habitava este mundo e nunca esteve longe dele, por meio do Filho nascido para este mundo, assumiu nova maneira de estar com os filhos dos homens, tornando-se um deles.»

Segundo o arcebispo, com o Natal de Jesus, «o céu uniu-se à terra, o Criador e a criatura trocaram seus dons, o ser humano ganhou uma dignidade inigualável e o Divino assume feições humanas».

A partir do nascimento de Jesus em Belém, nenhum ser humano precisa mais sentir-se sozinho nem esquecido neste mundo, destaca Dom Odilo.

«Cada um foi valorizado e amado pessoalmente pela ternura daquele que se fez pobre para enriquecer-nos com sua divindade; fez-se pequeno para que ninguém tivesse medo de aproximar-se dele e os corações altivos fossem desarmados e apaziguados.»

«Feliz Natal a todos!», expressa o arcebispo. «Que a bênção e a paz de Deus sejam abundantes em todos os lares e na vida de cada pessoa! A esperança anime e sustente nosso caminhar também durante todo o ano novo de 2008!», afirma.

NATAL


Bento XVI convida a anunciar alegria do Natal ao mundo inteiroConvida os fiéis a «anunciar a todos a presença de Deus no meio de nós»

CIDADE DO VATICANO, domingo, 23 dezembro de 2007 (ZENIT.org).- Hoje, Bento XVI convidou todos os fiéis a anunciar ao mundo a alegria do Natal, o amor de Deus feito homem.

Nisso consiste a missão evangelizadora da Igreja, esclareceu aos milhares de peregrinos congregados na Praça de São Pedro para participar da oração mariana do Ângelus. «Amanhã à noite nos reuniremos para celebrar o grande mistério do amor que não pára de nos surpreender. Deus se fez filho do homem para nos tornar filhos de Deus», começou constatando.

«A missão evangelizadora da Igreja – indicou – é a resposta ao grito ‘Vinde, Senhor Jesus’, que percorre toda a história da salvação e que continua a ser levada entre os lábios dos fiéis. ‘Vinde, Senhor, transformar nossos corações, para que no mundo sejam difundidas a justiça e a paz’.»

O pontífice esclareceu que este é o motivo que levou a Congregação vaticana para a Doutrina da Fé a publicar recentemente a Nota Doutrinal Sobre Alguns Aspectos da Evangelização.

«O documento se propõe, de fato, a recordar a todos os cristãos, em uma situação na qual freqüentemente não está muito clara, nem mesmo a muitos fiéis, a própria razão de ser da evangelização, que o acolhimento da boa nova na fé motiva por si mesma a comunicar a salvação recebida como dom», reconheceu.

«A verdade que salva a vida, que se fez carne em Jesus, incendeia o coração de quem a recebe, com um amor ao próximo que move a liberdade a doar isso que gratuitamente se recebeu.»

A vinda de Deus, «que se faz próximo de nós no Natal, é um dom inestimável, dom capaz de nos fazer viver no abraço universal dos amigos de Deus, naquela rede de amizade com Cristo que liga o céu e a terra, que estica a liberdade humana até seu cumprimento e que, se vivida em sua verdade, floresce em um amor gratuito e cheio de cuidado pelo bem de todos os homens».

«Nada é mais belo, urgente e importante que doar gratuitamente aos homens o que gratuitamente recebemos de Deus», reconheceu o Papa.

«Nada pode nos eximir ou nos tirar deste oneroso e fascinante dever. A alegria do Natal que já experimentamos, enquanto nos enche de esperança, alenta-nos, ao mesmo tempo, a anunciar a todos a presença de Deus no meio de nós», concluiu.

Bento XVI presidirá a Missa do Galo na noite de Natal e, ao meio-dia do dia 25 de dezembro, ele dará a bênção «Urbi et Orbi» e felicitará o mundo pela vinda de Jesus.